guardado em meio a poeira de uma gaveta qualquer, um texto antigo.
ainda tem um pouco do café da madrugada derramado no papel. coisas assim só saem depois das 2 horas da manhã.
estava afobada. minhas letras escorridas confirmam a hora exata de quando o café pulsava por entre os dedos. um tremor. talvez de raiva. uma agústia. carta com cheiro de lua, ou de noite muito exposta.
alguns borrados de lágrimas. talvez estava em uma transe qualquer.
estou cansada. os dias passam e não vi nada que tomasse meus olhos. ando com um filtro desgastado, todo arranhado. o mundo virou-me as costas e estou só. saiu pela porta da frente com meus pertences. restou a lua que, por maldade, corre para meu quarto e ilumina meu vazio....
o gato acaba de passar por entre minhas pernas. poderia ser um gato. seria linda, educada e elegante. correria o mundo para acabar com um parceiro qualquer, deitada em algum estacionamento fechado, com seguranças andando em minha volta.
...
a música que coloquei não condiz ao que sinto. as gritarias ensurdecem minha solidão, e, por alguns momentos aleatórios, esqueço até o motivo de estar escrevendo aqui. imagino lendo isso daqui a 10 anos e achando tudo engraçado. não se escreve mais cartas de amor como antigamente. um dia, você está iluminada, no outro, um grande nada. estava falando de gatos. talvez seja esse meu objetivo de vida. ser um gato lindo, de pelo brilhoso e agraciado por todos meus donos. não preciso de um parceiro, preciso de um dono. talvez ainda queira ser um gato.