Sábado, Novembro 26, 2005

o filho dele

"O que ele nunca sabia nem saberia, o estúpido, o quadrúpede, é que para ele nunca ia haver perdao. Jamais haveria perdao por ele ter sido o primeiro homem em minha vida. Jamais perdao pelas horas que esperei por ele temendo o pior. E jamais perdoarei por ter mantido tao escuras tantas coisas suas, seu passado, suas outras mulheres, lugares por onde andou, o que pretendia da vida, o que achava de mim.
Ódio? Amor? Quem sabe? O que a vida me deu era aquilo. Aquilo, aquilo, aquilo sim, só aquilo tudo fazia sentido. Hoje sei: só o horror faz sentido. O horror de desconfiar, o horror de ter certeza que estava grávida, o horror de ficar feliz com tamanha monstruosidade, o horror de saber que ele ia continuar. Que eu ia por no mundo um seu igual. Que ele nai ia acabar nem com sua morte. Que eu, que queria sua morte, dava meu corpo para que ele e tudo aquilo que ele era continuasse. Ele era maior que eu. Ele era mais, ele ia mais longe, ele ia me fazer sofrer por todos os séculos dos séculos."

Nova paixao: Paulo Leminski.


(brigada)